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PARQUE MAYER, reabilitar, começa aqui!

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Na Lisboa de 1922, no local onde se situava o Palácio Mayer, abriu uma feira vedada que funcionava no verão. Com teatros, animatógrafos, tômbolas, tiro ao alvo, cafés, cervejarias e outros divertimentos habituais destes recintos. 

Inicialmente chamado “Avenida Parque”, o Parque Mayer, inaugurado a 15 de Junho, rapidamente se impôs como palco principal do teatro de revista e feira popular. Centro de multiculturalidade da Lisboa de então, aqui se cruzaram bandas de jazz, com artistas de música ligeira, fado, samba, entre outros. 

A viver o rescaldo da I Guerra Mundial, a Europa tentava esquecer o horror despindo-se de preconceitos e conservadorismo. Em Portugal, a Avenida da Liberdade e área circundante, transformam-se na cena predilecta de uma vida boémia onde intelectuais, artistas, foliões e marialvas mergulhavam na vertigem de viver, moderna e cosmopolita. Lisboa assiste ao nascimento de uma nova realidade feminina. A mulher portuguesa liberta-se para desespero de uma geração de matronas vitorianas. Arranca a navalha de barbear de seus pais, cortando o cabelo à “la garçonne”, atira ao chão corpetes e espartilhos, revelando a sua verdadeira silhueta, liberta de constrições. 

Tal como na música, o ritmo da vida acelera e aquece ao som do foxtrot, do tango, jazz, charleston e quickstep. As noites são um imenso plateau, onde actores da cena lisboeta se confundem num décor exuberante. Jorra o champagne, tragam-se o whisky e o cognac, afogam-se em Pernod e mergulha-se no esquecimento e na miragem do absinto. Riscados de cocaína, os dias casam-se com as noites, quebradas por curtas auroras de descanso.

É nesta ambiance que, a 1 de Julho de 1922, abre as portas o Teatro Maria Vitória. Primeira sala de espectáculos do recinto, estreia-se com o espectáculo “Lua Nova” que contava com temas musicais de cariz popular reagindo assim contra a importação de danças e ritmos estrangeiros, sátira que atraiu desde logo a atenção do grande público garantindo sucesso e casa cheia. 

Ao longo dos anos, sucedem-se os êxitos. A emancipação da mulher é retratada, em 1927, com “A Reviravolta”. Amália Rodrigues nasce aqui para o Teatro na revista “Ora vai tu!”. Aqui tornam-se célebres artistas como Helga Liné, António Silva, Humberto Madeira, Teresa Gomes, Eugénio Salvador, Costinha e Max. Em 1961, Raul Solnado chega ao Maria Vitória e “Bate o pé” protagonizando dois quadros que perdurariam no nosso imaginário colectivo “A guerra de 1908” e a “História da minha vida”. Foi também neste Teatro que Artur Mourão trouxe “Todos ao mesmo” tornando popular o tema “Ó tempo volta p’ra trás”, uma quase profética visão do que poderá vir a ser a canção do cisne do Maria Vitória. 

No final da década de 60, Vasco Morgado e Giuseppe Bastos assumem a exploração do Teatro sendo os responsáveis por uma “época de ouro” no Maria Vitória. “Ver, ouvir e Calar” testemunhou a mudança de regime e, rapidamente, os seus criadores – Aníbal Nazaré, Henrique Santana e Henrique Parreirão – lhe deram livre expressão renomeando-a “Ver, ouvir …e falar”. Com o povo português ainda incrédulo, estreia “Até parece mentira”, a primeira revista depois de Abril de 74.  

Em 1986, a tragédia abateu-se sobre este Teatro com o deflagrar de um incêndio devastador. A sua reconstrução faz-se pelas mãos de Hélder Freire da Costa e Vasco Morgado Júnior, com projecto do arquitecto Barros Gomes. Renascido das cinzas, reabre em 1990 com “Vitória, Vitória” de Henrique Santana e Francisco Nicholson. Mantém-se nos dias de hoje em funcionamento o último bastião do glorioso Parque Mayer.

Em 1922 é entregue ao arquitecto Urbano de Castro a execução do projecto da segunda casa do Parque Mayer, o Teatro Variedades, tendo início a sua construção em 1924. Abre portas em 1926 com a revista “Pó de arroz”, no qual partilhavam a cena Vasco Santana e Augusto Costa.  Sucederam-se os êxitos neste palco, apresentando cerca de cinco espectáculos por ano. Grandes vultos do Teatro português, hoje recordados de norte a sul, levantaram plateias no Variedades. Laura Alves, na opereta “Lisboa 1900” (1941), Beatriz Costa, Vasco Santana, Raul Solnado, José Viana e Eunice Muñoz, entre tantos outros. 

A dupla Giuseppe Bastos e Vasco Morgado tomam as rédeas da exploração deste Teatro na década de 60, promovendo um conjunto de renovações no seu interior. Assistimos então ao “Zero, zero, zero, ordem para pagar” na qual José Viana imortaliza o “Fado do cacilheiro” mas um incêndio interrompe “Descalços no Parque”, corria o ano de 1966, tendo reaberto as suas portas ao público um ano depois com Ivone Silva e Raul Solnado em cartaz com o célebre “Pois,Pois”. A Revolução de Abril foi também neste Teatro celebrada. “Ó pá, pega na vassoura” de José Viana aplaudiu Abril. 

A década de 90 manteve vivo este Teatro com produções pontuais, período em que Hélder Freire e Vasco Morgado Júnior investem em renovações no interior do Teatro que permitiriam o reacender das luzes com o programa semanal de Filipe La Féria “Grande Noite”. Mas, apesar dos esforços envidados, o Variedades fechou portas em 1995, com um grito de revolta em modo de revista com “Ao que nós chegámos”. 

Considerado um dos primeiros edifícios marco histórico do modernismo em Portugal, O Teatro Capitólio foi inaugurado a 10 de Julho de 1931. Marcado por características arquitectónicas únicas e inovadoras, com uma lotação de 1391 lugares, foi considerado imóvel de interesse público em 1983. 

O Capitólio veio dotar o Parque Mayer de uma maior diversidade na oferta exibindo filmes portugueses, revista, circo, operetas, e foi palco do Festival Internacional de Magia. Inovador, chegou a oferecer a possibilidade de cinema ao ar livre e patinagem no gelo. Multidões acorreram ao Capitólio para assistir às primeiras exibições de grandes clássicos do cinema português como “A Severa”(1931), de Leitão de Barros, “A canção de Lisboa” (1933) de José Cottinelli Telmo, entre muitos outros. Foi ainda palco dos famosos e badalados Bailes de Carnaval bem como de espectáculos internacionais, nomeadamente, “A Alma de Setsuan” de Bertolt Brecht que, no ano de 1960, gerou tumulto logo no dia da sua estreia, com direito a intervenção policial, tendo sido a única peça deste autor autorizada na vigência do Estado Novo. Mais tarde, qual grito de liberdade, e com o desaparecimento da censura, o Capitólio acolhe, em 1974, o clássico “Garganta Funda”. 

“A vida é bela” sobe a este palco no ano de 1960, tendo sido este o primeiro espectáculo de revista assegurado pelo maestro Frederico Valério que viria a dirigir todos os espectáculos no decorrer da temporada 60/61, sob a direcção de uma sociedade constituída por Raul Solnado, Carlos Coelho, Humberto Madeira e Vasco Morgado.  

O Capitólio acolhe a Companhia de Amélia Rey Colaço em 1967, depois do incêndio no Teatro Avenida, onde já se encontrava temporariamente, desde 1964, devido ao trágico incêndio no Teatro Nacional. Aqui permaneceu até ao ano de 1970. 

Laura Alves assume a direcção da companhia teatral do Capitólio decorria o ano de 1973. 

Os anos foram ingratos para com este monumento da cultura moderna portuguesa. Sujeito a um processo de remodelação, encetado em 2010, o Capitólio, rebaptizado de Teatro Raul Solnado, vive hoje entaipado, esventrado da sua identidade, sitiado pela decadência.

O dia 13 de Janeiro de 1956 viu nascer o Teatro ABC pelas mãos do empresário José Miguel, com a estreia da revista “Haja Saúde”. Foi neste novo espaço que a Revista assumiu o mais forte cariz interventivo.

A década de 70 viria a ser um ponto de viragem no ABC quando começa a ser explorado pelo então desconhecido Sérgio Azevedo, em 1972. Este empresário viria a implementar importantes mudanças na estrutura tradicional da revista à portuguesa como ficou patente em espectáculo como “É o fim da macacada” (1972), da autoria de Francisco Nicholson, Nicolau Breyner, Gonçalves Preto, Rolo Duarte e Mário Alberto. A Revista reencontrou-se. 

O esbater dos tons de azul durante o Marcelismo e as convulsões decorrentes da Revolução trouxeram novo fôlego à Revista. O fim da censura e os ventos de liberdade marcaram a Revista à Portuguesa transformando-a num veículo de Resistência no final de um período de opressão e de crítica social no despertar atribulado da liberdade. 

“Tudo a nú” viveu em cena esta transição, e viu o seu título mudado para “Tudo a nú com parra nova” no pós-Revolução e marcou a primeira grande crítica ao projecto de urbanização que visava a destruição do Parque Mayer. Um triste prenúncio do que estava para vir. 

Foi nesta era do ABC que nomes como Ary dos Santos, Aida Baptista, Ivone Silva, Octávio Matos e Herman José chegam ao ABC, cavalgando estes ventos de mudança, e permitem ao Parque Mayer reafirmar-se nesta nova realidade social. 

Na viragem da década, Carlos Santos e Manuel Nunes assumem as rédeas do ABC, trazendo com com eles artistas como Marina Mota e Carlos Paião. Muitos acorreram ao “Põe-te na bicha” para ouvir António Calvário cantar “Mocidade, Mocidade”. 

“Ai Cavaquinho” viu o ABC reduzir-se a escombros no deflagrar um violento incêndio em 1990. O Teatro é recuperado, reabrindo as suas portas em 1993, para fechar definitivamente em 1997. Numa derradeira serenata à cidade, o ABC canta “Lisboa meu amor”. Lisboa ouve mas, para a cidade indiferente, só o amor já não é suficiente. 

Finda esta viagem a mais uma história de um passado glorioso, característica última de um Portugal saudosista, ouvimos Lisboa sussurrar um triste Fado ao ouvido do Parque Mayer. Mais do que nunca, importa agora não permitirmos ser o Fado a ditar, uma vez mais, o futuro. 

O Parque Mayer, palco de excelência de intervenção e marco da liberdade de expressão, sobrevive hoje teimosamente, indeciso e cinzento, por entre escombros e memórias. Desde 1755 que Lisboa vive no sobressalto de um novo terramoto. Mas, na verdade, numa partida insidiosa do destino, pequenos terramotos têm vindo a abater parte do nosso património edificado. 

Completamente a Leste, Lisboa assinou o livro de condolências do Éden, numa procissão ordeira de pesar. Acordes de Hard Rock marcaram o ritmo do esborilar glorioso do Condes. Assistimos à tragédia muda de uma Lisboa que se despediu do Odéon, sem mesmo uns tristes acordes de piano, num esventrar tristemente articulado de um património reconhecido mundialmente. 

Assim, e para evitar que mais um pequeno terramoto nos faça assistir à derrocada final do Parque Mayer, é imperativo ter a visão e a vontade de erigir à sua volta “gaiolas pombalinas” que nos salvem de mais uma hecatombe cultural. 

Numa época de reavaliação das nossas prioridades, urge pensarmos no futuro que almejamos para esta zona nobre da cidade. É imperativa uma reabilitação urbana que não se encerre no turismo e comércio de luxo. O casamento deve ser celebrado nas ruas de Santo António num espírito de união entre turismo e cultura, entre comércio e habitação, com votos trocados entre as várias camadas da população. 

O Parque Mayer é a aliança, símbolo e âncora deste tão desejado casamento. 

Mas o tempo não volta para trás. É nosso dever devolver ao Parque Mayer a dignidade que merece restaurando-o, renovando-o, transformando-o num espaço preparado para glórias futuras. 

O Parque Mayer renovado assenta em três pilares fundamentais: a história, a oferta cultural e a educação artística. O projecto que aqui apresentamos vislumbra um futuro onde as artes andam de mãos dadas com a população de Lisboa, onde a influência daquilo que se cria dentro do Parque prespassa os seus muros, onde as gerações se entrecruzam e partilham estórias e saberes. No caos da cidade, o projecto do Parque Mayer pode ser o bater de asas que enceta um efeito borboleta para a dinamização sociocultural que almejamos. 

Queremos o Parque Mayer como contador de estórias, mas também da história, não só da sua, mas de toda a história do Teatro em Portugal. Ao reservar um espaço para o Museu do Teatro, garantimos não só melhores condições de preservação do seu espólio como a ampliação do mesmo, como também permitimos uma maior e mais ampla interligação com os habitantes desta cidade das artes. A integração do Museu do Teatro no renovado Parque Mayer representa um elo único entre passado, presente e futuro, numa amálgama de criatividade transformadora e intemporal. 

Queremos o Parque Mayer como potenciador do imaginário. O Museu do Brinquedo, espaço lúdico por excelência, encontra aqui o seu espaço fecundo. Quem pode afirmar que não foi a brincar com soldadinhos de chumbo que Liev Tolstói teve o primeiro vislumbre de Guerra e Paz? Ou que não foi a brincar com aguarelas que João Botelho imaginou a sua nova versão d’Os Maias? Aqui queremos brincar, educar, criar. 

A criação de programas de ensino direccionado para as artes é o garante de uma nova dinâmica social. A criação artística é, sem dúvida, o espelho de uma sociedade desenvolvida, madura, realizada. Queremos o Parque Mayer como o tubo de ensaio de uma experiência de ensino integrado onde a aprendizagem se cruza com a experiência, com a vivência. Nas artes performativas, é na repetição do ensaio que se almeja a perfeição. Se a teoria nos dá as ferramentas, é a prática que nos dá a segurança de criar. Assim, a intenção deste projecto é a de integrar o ensino através da deslocação para este espaço da Escola de Música do Conservatório Nacional, a Escola de Dança do Conservatório Nacional e a Escola Superior de Teatro e Cinema. 

Ao estabelecer parcerias estaremos a potenciar renovadas condições para que os nossos jovens possam desenvolver a sua criatividade em pleno, sem constrangimentos físicos, e em plena comunhão com o espaço envolvente, com a nossa cidade, de forma segura e sustentável. 

Ao abrir este horizonte, estaremos a potenciar o mercado cultural de forma sustentada e estratégica. Estaremos a preparar o futuro. A formação de profissionais num ambiente de partilha e intercâmbio fomenta a necessidade e o ensejo de conjugar esforços com outras culturas. Este espaço de ensino renovado é o palco onde poderemos cruzar todas estas diferentes realidades e reencontrar um local onde a internacionalização possa voltar a ser verdade. Quando tempos negros assolam a Europa, permitamos que Lisboa, cidade branca, contribua com a sua melhor nitiscência. Queremos um Parque Mayer urbi et orbi (para a cidade e para o mundo). 

Os Teatros do Parque Mayer são o pivot deste projeto. É neles que renasce este ciclo de vida artística. É nos Teatros que público, estudantes e agentes culturais encontrarão o seu espaço comum. Queremos manter a identidade destes Teatros, recuperar o público para as suas salas, reabilitar a malha humana envolvente. 

Não há maior riqueza para um país do que um cofre cheio de Cultura.

Como um sopro de Delfos, o que decidirmos para o Parque Mayer será uma profecia do que Lisboa, outrora capital europeia da cultura, quer para o seu futuro. 

Parque Mayer, reabilitar começa aqui!

Vasco Morgado

Presidente da Junta de Freguesia de Santo António

 

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