Estivemos à conversa com a Arquiteta Raquel Alho, que idealizou e realizou todo o projeto da requalificação do Jardim das Amoreiras, na qual obtemos diversas respostas sobre o projeto.

Quais as mudanças que vão decorrer no jardim?
O Espaço Público em Lisboa já está bem consolidado, principalmente na zona histórica da cidade. Este jardim está inserido no tecido urbano como um jardim de bairro, mas é muito mais, pois associado ao aqueduto podemos considerá-lo como um símbolo da cidade.

A requalificação do Jardim Marcelino Mesquita será feita ao nível da plantação dos canteiros, não havendo alterações na forma e nos caminhos do jardim.

No que se baseou para chegar ao conceito do projeto?
A presença dos arcos finais do Aqueduto das Águas Livres, marcam de forma significativa aquele espaço. No subsolo encontra-se a Mãe d’água, reservatório de água onde atualmente funciona o Museu da Água. A água é assim o elemento que serve de base ao conceito de intervenção na requalificação do jardim, penetrando pelo jardim em forma de manchas de plantação, como uma corrente continua de passagem de água. Mimetizando o transporte de água pelo aqueduto, que abastecia de água para consumo os cidadãos da cidade.

Teve em conta o fato deste jardim ser considerado um dos jardins romântico da cidade de Lisboa?
Tive sempre em consideração a história do jardim desde a sua formação até aos tempos de hoje, assim como o tipo de uso que tem hoje e num passado mais recente. A memória mais recente do jardim torna-se a mais importante para os utilizadores, e por esse motivo procurei ir ao encontro das nostalgias de cada um, mas ao mesmo tempo, trazendo novas sensações visuais e de sentimento de pertença. O jardim foi construído na época do Marquês de Pombal para homenagear a fábrica das Sedas, que estava localizada aqui nesta Praça. Mas na época era um terreiro que foram plantadas apenas árvores, plantaram-se 331 amoreiras na zona. Para além das amoreiras, o ajardinamento desta Praça começou a ser executado a partir de 1886, a que em 1892 se juntou um chafariz tanque para o gado, um lavadouro, um telheiro, uma casa do capataz. Contudo a plantação era feita fechando os canteiros com arbustos altos criando barreiras visais entre eles, e não se tinha uma perceção do jardim como um todo.
Os utilizadores têm muito carinho por este jardim, desde moradores até aos turistas. É um jardim que convida à vivencia de Lisboa, transmitindo calma e serenidade, numa Luz solar difusa, com os raios do sol a passar nas folhas verdes claras das copas das árvores.

Foi um desafio para si este jardim? Se sim em que sentido?
Todos os jardins são um desafio, cada jardim tem uma característica, uma forma, uma exposição solar, uma vivencia, que os torna únicos. E este é um jardim com bastantes desafios. Conforme o tempo foi passando as árvores ficaram maiores criando muito ensombramento e dificilmente se consegue manter zonas verdes. Por este motivo tivemos de ter em conta a exposição solar de cada canteiro individualmente.

Qual a razão para a escolha das espécies a serem plantadas no jardim?
As plantas foram escolhidas tendo em conta que o jardim na sua maioria está à sombra. Para que não houvesse grande monotonia e para que conseguíssemos transmitir sensações diferentes ao longo das épocas do ano, tivemos em conta uma diversidade de plantas. As plantas são de sombra e meia sombra, com texturas cores das folhas e épocas de floração diferentes. Assim, os utentes poderão ter várias experiências visuais ao longo do ano, sendo um motivo de visita ao jardim.

No projecto só uma parte de jardim é que tem relva. Essa decisão prende-se com o facto de querer apostar mais no arvoredo?
O arvoredo neste jardim é uma presença constante e marcante. Embora hoje não existam amoreiras, mas sim Tílias e Gingko bilobas, estas dão-nos a noção de cada época do ano. O facto de serem árvores de folhas caducas, no verão temos as copas com folhas de tons verdes, no Outono as folhas ficam amarelas e verdes claras, no Inverno estão despidas e deixam entrar o sol e na Primavera ficam com folha nova e com flor! Em relação à utilização da relva no jardim, esta é uma mistura de plantas gramíneas que necessitam de bastante sol, para além de outros fatores e condicionantes necessários para a sua sobrevivência. Um espaço relvado uma forma rápida e fácil de criar ''verde'', visualmente cria contraste com as manchas herbaceo-arbustivas, quer ao nível de alturas das plantações quer ao nível de uniformidade do jardim. Contudo neste jardim é muito difícil manter um relvado, daí que a utilização do relvado é só usado em três dos canteiros mais ensolarados do jardim. A aposta em plantas nos restantes canteiros deve-se às condições edafo-climaticas não propicias ao relvado. Mas à semelhança dos canteiros relvados, optou-se por plantas de cobertura que no qual tentamos criar a mesma sensação visual.

O prazo previsto das obras de requalificação do Jardim das Amoreiras será cerca de 2 meses incidindo no sistema de rega, na fertilização de terrenos e na plantação.